
Por que é que as acácias de repente
Floriram flores de sangue?

e este parque em Cerveira (Castelinho) com este rio, estes bancos, estás árvores, tem Internet por todos os lados… eu bem tento ir para a margem a ver quando perco o sinal, mas não há nada a fazer, ando por aqui no blog e a ouvir música por stream sem problema nenhum. WOW! proponho uma tabuleta para a entrada: TABLET READY!

Um filme do Terrence Malick é uma delícia para as capas das revistas de cinema. Quantos realizadores possuindo um estilo que devemos aceitar como subtil podem injectar esse seu toque por tantos aspectos da obra (e da sua difusão) de forma tão intensa e clara como acontece com Malick? A resposta será sempre proporcional ao número de realizadores que levam tanto tempo a amadurecer um projecto de filme.
Esta notícia surge no JN e cria uma confusão enorme. O título é sobre um estudo que defende ser positivo ter uma “tarefa secundária” ao conduzir e a imagem que o JN usa para ilustração é a de uma jovem segurando o telemóvel enquanto conduz. Ora, há uma grande diferença entre executar uma tarefa secundária – mesmo que seja falar ao telemóvel – e simplesmente não ter as mãos no volante. Não é isso que o Estudo defende. Ou pelo, se é, a notícia tão pouco o esclarece.
Em tantos anos de Internet devo dizer que poucas imagens me fizeram rir tanto como esta:
Há uma configuração perfeita entre os movimentos tresloucados de bailarino e gatos, sendo que a montagem é perfeita, com o efeito muito realçado pela flashada. O gato cinzento, em especial, tem um toque de classe ao usar a cintura para bailar enquanto que os outros dois estão demasiado frenéticos, a meio caminho entre a lambada e o karaté.
É uma grande imagem. Do nosso tempo. Da nossa cultura.

A frase
No sábado voltei a ver “Os Respigadores e a Respigadora“, maravilhoso filme de Agnès Varda que tem vindo a crescer com o tempo e que se irá revelar ao longo das próximas décadas como peça resistente e fundamental na História do Cinema. A certa altura reparei numa frase cruel dum homem que é capataz ou gerente num dos pomares que aparecem no filme. Ele comenta uma maçã que o sol estragou e que não pode ser vendida dizendo: “é como uma pessoa feia e estúpida“. No momento a frase chocou-me porque a legendagem em castelhano traduziu por “é como uma mulher feia e estúpida“, o que seria duma deselegância nunca antes vista. Em primeiro lugar pelo machismo envolvido e depois porque o sujeito não se incluía na categoria denominada. Assim, na tradução correcta, o comentário depreciativo pode ser válido para ele próprio. Mais: ele pode até não estar a excluir-se. Podemos estar numa linha fina entre a arrogância absoluta e a humildade excessiva. O documentário não nos mostra muito mais sobre este homem e ficamos sem saber (a primeira hipótese talvez seja mais provável).
A metáfora
Contudo, a frase que passa quase despercebida é interessante. “Os Respigadores e a Respigadora” é uma máquina de metáforas. No filme os ciclos de metáforas sucedem-se como Matrioskas, as bonecas russas que no seu interior são habitadas por uma mais pequena sucessivamente. E temos então duma forma mais esquemática o ponto original desta metáfora:
- Maças inúteis que são como pessoas inúteis;
E a forma como esta metáfora opera com o desenrolar do documentário (que neste momento leva cerca duma hora) mostrando que:
1. Essas maçãs inúteis são úteis. São precisamente elas que são respigadas e reaproveitadas. E que dessa forma são o objecto dum acto belo e essencial.
2. Da mesma forma que o filme dá uma nova luz sobre as “maçãs inúteis”, também o faz sobre as pessoas que as respigam. Pessoas marginalizadas pela sociedade, pessoas olhadas de lado, pessoas das quais se desconfia e, claro, pessoas com pouco ou nenhum dinheiro. Portanto, pessoas “feias e estúpidas” num sentido e ponto de vista muito abrangente. É precisamente sobre estas que Agnés Varda faz mini-retratos esplêndidos (recordo pelo menos 3) em que nos introduz pessoas de má aparência social deixando-as no final do retrato com uma dignidade luminosa. Ou seja: Essas pessoas são úteis, belas e inteligentes.
A conclusão metafórica (o que Agnés Varda se recusou a dizer directamente mas preferiu deixar para ser sentido) é que somos também nós, na sociedade, que não estamos a respigar as pessoas como seria necessário. Porque respigar também é rever e repensar. E Varda dá o exemplo.
(auto-retrato em serralves, na semana passada, com o telemóvel)
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Sou humano porque o vento corre pelos montes
e o sangue rompe entre as veias.
Sou humano porque as palavras são um sopro de nuvens
num céu escamado em laranja entornado.
Sou humano em cada labareda gritada
e sempre que estou entupido de lágrimas
sou humano.
.
E ainda assim,
claro como a água,
não sou nada.
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